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PAULO GONZO: 5 de Fevereiro de 2014 - 14H

popularfm_paulo gonzoPAULO GONZO

5 de Fevereiro de 2014 - 14h

Os Mais Belos Lamirs Radiofnicos com Nuno Merca

*Mais vale s? A regra, que gostamos de acolher e aplicar quando se trata de afirmar ou sublinhar personalidade e independncia, escapa-se ao absoluto tudo depende do momento. E, j agora, das companhias. Na viagem musical de Paulo Gonzo, uma daquelas que se ri da linha recta como trajecto recomendado a adoptar entre dois pontos, este abrir de portas aos parceiros de voz fica longe de ser algo indito mas ganha agora a sistematizao e a intensidade de um captulo autnomo. Antes, j as cumplicidades tinham aberto a porta a Olavo Bilac ou a Lcia Moniz, s para citar dois exemplos. Mas fica a ideia de que nenhum antipasti seria capaz de nos preparar para a verdadeira dispora geogrfica, cultural, esttica que o cantor assume agora, uma espcie de big bang que solta luzes novas e intensas a cada exploso, ou seja, a cada encontro. Que diabo!, quem j foi bluesman, cantor de soul, rocker, parente prximo do jazz, crooner, baladeiro, at fadista e Paulo Gonzo j foi tudo isto, de pleno direito e com eficcia absoluta tem como crdito toda a legitimidade para continuar a crescer, algo inevitvel quando se partilha sem reservas, e para, ao mesmo tempo, se divertir e nos estender a ns o prazer em estado puro. Este lbum de Paulo Gonzo, o mesmo homem que colecciona xitos em Portugus e que nunca abdicou de mostrar como incondicional do soul e dos blues (basta apanhar as prolas espalhadas ao longo do currculo de gravaes ou concentrarmo-nos no irrepreensvel disco By Request), vale como um autntico menu de degustao. Passe a expresso e fique a ideia, porque no h exageros nem repeties, porque a cadncia de surpresas consecutivas, porque os sabores ganham as asas dos melhores contrastes, porque a nica lgica a da qualidade e a nica lei a da diferena, percorrida cano a cano. No se pense, no entanto, que o homem que serve de interface s canes e aos contornos deste disco sempre cozinhado em equilbrios de risco se encosta a qualquer espcie de exibicionismo ou de desleixo. precisamente o contrrio que ocorre, quando Paulo Gonzo chamado pelos talentos daqueles que sabia e instintivamente convocou a respostas absolutamente distintas entre si. Sem nunca se afastar da sua prpria alma de conhecedor curioso e de descobridor destemido. Faam o favor de seguir as propostas la carte. Tudo comea com um crooning de sonho, que parecia estar guardado para as vozes do anfitrio e da espantosa Ana Carolina, brasileira universal. verdade que o original do tema at italiano, que Ana Carolina a chamou ao Portugus h mais de uma dezena de anos, mas a convergncia de dois privilegiados para uma histria de adeus (ser mesmo?) d ao enredo uma nova dimenso. Logo a seguir entra em cena Anselmo Ralph, representante maior do balano sedutor e da doce malandrice angolana a passadeira estendida ao portugus aproveitada para outro exemplo da multiplicidade de paixes de Paulo Gonzo. Vem depois um encontro de mestres, chamado Jorge Palma para um contraponto que, aos primeiros versos, j um clssico. Vale a pena lembrar que este S j passou pela voz de Gonzo, h mais de quinze anos (Voz e Guitarra, 1997) mas s agora cria espao para a presena do autor. Com a andaluza India Martnez, a conversa outra, com flamenco e salero em fundo, com uma vibrao que no se confunde. Quando cabe ao italiano Mrio Biondi assegurar a sua rplica a Gonzo, podamos estar a ouvir a resposta de Barry White a Ray Charles no dizer pouco sobre as alturas alcanadas no dueto que uma das chaves de todo o lbum. Sem darmos por isso, que as boas novas no se cronometram, j foi desbravada quase metade deste disco. Ficou dado o mote: um tempero para cada compasso, um perfume para cada dilogo, uma dimenso para cada guio. Sem problemas, deixamo-nos guiar at Amrica Latina, para que o mexicano Carlos Rivera recupere, mano a mano, o xito que Fascinacin. A passada africana est de volta, outra vez com Angola (e Matias Damsio), mais adiante com Cabo Verde (e esse viajante de tantos mares que Tito Paris). Mas no se dispensa o slow assolapado, Talk To Me Instead, capaz de convocar uma gloriosa desconhecida, mas s at agora Tammy Payne. Ainda se descobre um lugar especial para que Faf de Belm venha derramar mais-valias sobre Vais Entender, que Paulo Gonzo deixa solta para uma verso em que se percebe que, entre o melhor de Portugal e do Brasil, no h mesmo longe nem distncia. Se possvel falar de despedidas num registo em que a boa tentao voltar ao princpio, baralhar e deixar correr o shuffle do iPod, o tom o certo, quando Rui Reininho assina a verso feliz de These Foolish Things e o saudoso Bernardo Sassetti passeia pelo piano, em fundo ou bem vista. Faz-se justia, dentro da multiplicao dos gostos. Paulo Gonzo , desta vez, o cicerone que tem espao para caminhar em todas as direces, nunca cedendo aos sentidos obrigatrios. No precisa de ser o macho alfa de uma alcateia de notveis cantores porque lhe cabe, naturalmente, a conduo dos acontecimentos. No cansa, ouvi-lo. Nem nos cansamos de abraar, com o aplauso, com a emoo, com a fidelidade que merecem os que mantm a luz acesa, cada um dos passos deste cantor que, tantos anos e tantas cantigas depois, ainda nos arrebata e comove e convence. Volto quase ao princpio: mais vale s-lo que parec-lo. Paulo Gonzo e no est s, como fica demonstrado.

* Texto de Joo Gobern.

No Estdio POPULARFM

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